Cadeirante no Dia a Dia é Como Todo Mundo

Cadeirante no dia a dia tem todas as delícias e dores que a vida oferece a qualquer pessoa. Muitos acham que o cadeirante ou a pessoa com qualquer outro tipo de deficiência estão em outra dimensão. Ora nos colocam como anjos especiais e maravilhosos, ora nos colocam como isentos de toda e qualquer responsabilidade.

Cadeirante no dia a dia também tem que pagar contas. Como todo mundo debaixo do sol ele precisa pagar para comer, pagar para morar, pagar para se locomover, pagar para se vestir… Enfim, pagar para fazer qualquer coisa. Pois é assim que a vida funciona, é assim que a banda toca.

Cadeirante no dia a dia cuida da casa, leva e busca os filhos na escola (sim, cadeirante também tem filhos), paga as mensalidades escolares se quiser ter os filhos estudando em uma boa instituição de ensino, paga combustível do carro que usa. É… Cadeirante tem o mesmo corre-corre de todas as outras pessoas.

Cadeirante no dia a dia levanta cedo e sai para trabalhar. Do trabalho segue para a faculdade, da faculdade volta cansado para casa, muitas vezes usando o precário transporte coletivo de nosso país, tentando entrar em ônibus lotados, arrastando e espremendo sua cadeira de rodas em meio a pessoas de todo tipo, algumas solidárias, outras antipáticas e egoístas, que torcem o nariz por estar dividindo o mesmo espaço com alguém que tem tanta dificuldade. A vida é dura para todos. E o deficiente físico também não escapa disso. A vida é luta. E a pessoa com deficiência também, se quiser participar do jogo, tem que lutar. E muito.

Cadeirante no dia a dia cuida da horta, trata das galinhas, cuida do cachorro, do gato, do papagaio e do periquito, faz compras na feira, no supermercado, no shopping. Sim, os deficientes físicos são um grande público consumidor. Bobo é o empresário que não os olha por esse ângulo. Nas verdade, este público é formado por 45 milhões de brasileiros com algum tipo de deficiência. O empresariado costuma reclamar do governo e da crise, mas nunca deu a devida atenção a este gigantesco público. Poucos países no mundo têm uma população tão numerosa. O Uruguai tem 3 milhões de habitantes, o Chile tem 15 milhões, a Austrália tem 18 milhões de pessoas, o Canadá tem 30 milhões. Pois só de pessoas com deficiência o Brasil (200 milhões de habitantes) possui 45 milhões de indivíduos. Se for contar com seus familiares, a conta explode acima de 100 milhões de pessoas. E todo este gigantesco público é totalmente esquecido e mal atendido pelo empresariado brasileiro.

Cadeirante no dia a dia cuida de seus familiares, leva-os ao médico, ao hospital, embora todos pensem que ele nunca é aquele que está ajudando, mas sempre o paciente. Várias vezes já passei por essa situação. Você chega no guichê de atendimento de um hospital, levando uma pessoa até gemendo de dor, e a atendente dirige a palavra à essa pessoa que está visivelmente passando muito mal e pergunta: “ele tem plano de saúde? Cadê a carteirinha dele?” como se o deficiente físico fosse um completo inútil e fosse eternamente doente. Em uma dessas ocasiões eu não aguentei e soltei o verbo: “ô garota, olha bem pra ela e olha bem pra mim, quem aqui está com cara de doente??”

Cadeirante no dia a dia frequenta motel. Motel?? Mas o que você foi fazer lá?? Ora, o que a gente faz em um motel? Sexo seu idiota. Motel é feito para as pessoas fazerem sexo. E cadeirante é uma pessoa. Motel é frequentado por gente, seja andante, cadeirante, heterossexual, homossexual ou que denominação quiser dar. Já passou da hora de acabar com esse tabu ridículo de achar que as pessoas com deficiência não gostam de sexo, que são indiferentes a ele, que não sentem prazer, que não proporcionam prazer. Basta lembrar: o deficiente físico é um ser humano, e sexo é inerente aos humanos e a todos os outros animais. Simples assim. E por falar em motel, como um lugar destinado a uso público, os motéis brasileiros deveriam cumprir a lei federal de acessibilidade. Por que a fiscalização não observa isso? Certamente devem achar que esses lugares não interessam também aos deficientes físicos. Mas não cabe ao fiscal julgar isso. Cabe, isto sim, cumprir a lei. E pronto.

Ser uma pessoa com deficiência física não nos isenta de nada, nem de desejos nem de obrigações. Temos e sentimos tudo que todos têm e sentem. Por isso não é justo que a arquitetura da mobilidade urbana nos exclua como têm feito sempre. Seja uma igreja ou um motel tem que possuir acessibilidade de modo condigno ao ser humano. As oportunidades devem ser a mesma, mesmo porque é isso que determina a nossa Constituição Federal.

Temos, sim, que lutar, temos que acionar todos os mecanismos legais que protegem nossos direitos, Ministério Público, Poder Judiciário etc. Temos que gritar até sermos ouvidos. Muitos avanços já foram conseguidos, mas se cochilarmos a coisa não só estaciona como regride.

Tudo que queremos é viver nossa vida em paz. Mas como diz o sábio: “se deseja a paz, prepare-se para a guerra.” Nada cai do céu, a não ser chuva e raios. Por isso, nossa luta é diária, cotidiana, todos os dias da semana. Assim como é cotidiana qualquer luta de qualquer pessoa.

Todos nós precisamos correr atrás de nossos sonhos ou mesmo de nossa sobrevivência desde o momento em que damos as caras por este mundo. O que estou tentando dizer é justamente isso: que é tudo igualzinho com a pessoa com deficiência. Ela não está fora do jogo circuito, não está fora deste grande emaranhado que o jogo da vida.

Portanto, não temos como aceitar tratamento diferenciado. Não somos piores nem melhores do que nenhum outro ser humano. Não somos tão frágeis ao ponto de achar que não precisamos sequer de sair de casa. Nem tão fortes que ao ponto de não precisarmos de adequações para nossa condição física. E vamos parar também com essa história de sermos heróis. Não sou nem quero ser herói de nada. Apenas quero que meus direitos sejam respeitados. O Estado é totalmente eficaz na hora de me cobrar as obrigações e totalmente inerte na hora de garantir meus direitos. Isso precisa e deve mudar. Por isso eu luto. Sei que não vou mudar o mundo, mas uma pequena pontinha em posso. E vou atrás disso. Sempre.

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