Hotel para cadeirante, como escolher sem errar

Hotel com acessibilidade para cadeirante já não é nenhuma novidade e nem tão raro como era há apenas dez ou doze anos.

Cadeirante também gosta, precisa e deve viajar como toda e qualquer pessoa. Aliás, cadeirante é uma pessoa humana e não um E.T. Lamento desaponta-los.

Mas, como quase tudo aqui em nosso país, o despreparo de muitos hotéis ainda é gritante. Seja na adaptação mal feita, que acaba não produzindo nenhuma acessibilidade, ou na total desinformação por parte de seus colaboradores que, ora nada sabem dizer, ora informam errado.

Hotel: algumas precauções antes da reserva

Antes de fazer uma reserva em um hotel ou pousada, eu tomo várias precauções para evitar qualquer tipo de aborrecimento. Mas nem sempre adianta.

  1. Entro no site do hotel e vejo com cuidado todas as imagens disponíveis, observando a acessibilidade.
  2. Telefone para os atendentes e faço todas as perguntas possíveis acerca de preparação para hóspedes que usam cadeira de rodas.
  3. Sempre dou preferência a hotéis de grandes redes. Por quê? Porque tudo é padronizado e o que você encontrou em um lugar onde se hospedou, vai encontrar em todos os outros. Portanto, se gostou das adaptações, irá reencontra-las em outros lugares para onde viajar.

Como eu disse anteriormente, apesar de tomar todas essas precauções, nem sempre adianta muito.

Uma rede que eu costumo usar quase sempre é a Accor, dona da bandeira Ibis, que dizem ser mais em conta, mas anda com os preços bem salgados ultimamente.

Como relatado, o motivo é a padronização. Os quartos são sempre do mesmo tamanho. Assim eu já viajo com total tranquilidade, pois sei que vou ter conforto e espaço para girar minha cadeira de rodas dentro do quarto e do banheiro.

Certa vez, em uma viagem a Belo Horizonte, continuei me hospedando no Ibis, mas não no que eu tinha costume de ficar. Resolvi experimentar uma unidade novinha em folha, o Ibis Savassi, que havia sido construída para a Copa de 2014.

Na chegada, já observei um enorme melhora: o balcão da recepção tinha desenho universal. Sua altura servia tanto para andantes quanto para cadeirantes. Tô em casa! Pensei.

Mas ao entrar no quarto, as decepções começaram. O bicho era tão apertado, que mal me permitia transitar até ao banheiro.

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Mas a decepção ainda maior estava no banheiro. Além de minúscula, fizeram as adaptações totalmente erradas. Colocaram uma barra de apoio tão distante da pia, que eu não conseguia lavar o rosto nem escovar os dentes. Sem falar que a pia era de tamanho ridiculamente microscópico. Mal cabiam minhas mãos.

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Quando o hotel fornece informações mentirosas

Uma vez fui conhecer o tão propalado Porto de Galinhas, em Pernambuco. Um lugar tão falado, tão famoso até em terras estrangeiras não poderia deixar de ser totalmente acessível aos cadeirantes, com hotéis e pousadas absolutamente bem equipados e preparados. Triste engano.

Antes de escolher o hotel, pesquisei bastante nesta fantástica ferramenta chamada internet, precisamente chamada Google, nosso santo Graal das informações!

Escolhido o hotel (Village) com base nas maravilhosas imagens postadas em seu site, fiz o tradicional telefonema para perguntar sobre a acessibilidade tanto aos quartos, quanto à imensa área de recreação que o site apresentava.

O funcionário que me atendeu garantiu que eu teria acesso a absolutamente tudo no hotel e que tinham, sim, um amplo apartamento adaptado para cadeirantes. Fechou! Tudo certo, tudo lindo e maravilhoso até… eu chegar ao hotel.

Já na chegada eu e minha mulher tivemos a primeira e pior das decepções que viriam a seguir. Apesar de tido como um hotel de alta qualidade, não era.

O quarto adaptado para cadeirante estava tão abandonado e mal cuidado, que era impossível alguém respirar lá dentro em razão das toneladas de mofo acumulado nas paredes, nas cortinas, no banheiro, na cama, no colchão… Enfim, era mofo pra tudo quanto é lado. Nunca havia visto algo assim, muito menos em um hotel.

Como seria impossível ficar naquele quarto, o hotel disponibilizou outro. Porém, este outro quarto mal cabia uma cadeira de rodas. A porta do banheiro deste outro quarto era daquelas estreitas e a cadeira de rodas não passava. A cada vez que eu precisava usar o banheiro, tinha que descer de minha cadeira e me arrastar pelo chão.

Como já estávamos ali, resolver fazer de conta que nada daquele aborrecimento estava acontecendo. Afinal, ainda havia muitas coisas a aproveitar. Por exemplo, o salão de jogos. Fomos então jogar a sinuca. Procurei pelo salão de jogo e não o encontrei. Ao perguntar para o atendente recebi a informação de que o salão de jogos ficava no mezanino e que não havia elevador, acessibilidade zero para o cadeirante.

Reclamei feio, alegando que eu havia telefonado e recebido a informação de que teria livre e fácil acesso a toda área de lazer, inclusive ao salão de jogos. “Quem te deu essa informação?” Quando te perguntam isso, você sabe que está ferrado. E eu estava. Não tinha jeito.

Diante de minha indignação, alguém nos sugeriu fazer um passeio até à vila de Porto de Galinhas. Como tínhamos comprado um pacote de viagens pela agência da TAM, foi-nos dito que teríamos direito ao transporte.

Cheios de vontade, seguimos para o estacionamento. E então percebemos que o transporte era feito em um micro-ônibus sem nenhuma acessibilidade para cadeirante.

Procurei saber qual seria, então, a alternativa, já que eu tinha direito em razão do que já havia sido pago no pacote. Pra minha surpresa disseram que eu poderia chamar um táxi, mas por minha conta. Aí, sim, me senti discriminado!

Com atitudes assim a indústria brasileira do turismo perde muito, pois somos 45 milhões de pessoas com deficiência, ávidas por viajar, ávidas para consumir, ávidas por comprar. Mas eles conseguem não nos vender. Conseguem nos afugentar. É inacreditável!

Prefira as informações honestas, mesmo que o lugar não seja preparado para cadeirantes

Em uma viagem para conhecer a linda cidade história de Paraty, fiz uma exaustiva pesquisa. As pousadas que possuíam totais adaptações para cadeirantes eram muito caras e eu tive que descarta-las.

Acabei encontrando a Pousada Portal de Paraty. O gerente, Renan, me informou que tinham apartamentos no térreo, mas que não havia nenhum deles adaptado para cadeirante. Entretanto, deu sua palavra de que eu conseguiria utilizar as áreas comuns da pousada.

O jeito honesto sobre como falou dos detalhes, até sobre alguns degraus que lá existiam me fez confiar nele. Colocamos o carro na estrada e seguimos.

Lá chegando tive uma excelente e agradável surpresa. O Renan (foto abaixo) tinha mandado fazer uma rampa de madeira para me receber, evitando assim qualquer aborrecimento para eu entrar ou sair da pousada. Uma adaptação simples, eficaz, removível, e que certamente vai servir para muitos outros cadeirantes que por ali porventura vieram a passar.

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É muito melhor quando o profissional diz a verdade e procura pequenas soluções do que quando não nos diz tudo, causando decepção e aborrecimento. Por isso, mesmo não tendo todas as adaptações necessárias para quem usa cadeira de rodas, eu recomento a Pousada Portal de Paraty — http://www.pousadaportalparaty.com.br/

Hotel em Natal, o lado bom e o ruim

Quando fomos conhecer a belíssima Natal, fez todas as pesquisas de praxe. Acabei encontrando um hotel mais em conta que tinha elevador e rampa. Assim, eu estava garantido caso o elevador quebrasse.

E não deu outra: o danado vivia quebrado. A rampa, além de muito inclinada, tinha um vaso de planta no patamar onde se faz a curva.

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Isso é uma das coisas mais irritantes para um cadeirante. Rampa não é lugar de enfeite, de ornamentações. Em quase todo lugar o responsável tem essa insistente e irritante mania, que atrapalha em muito a vida de quem faz uso de uma cadeira de rodas.

O lado do bom do passeio em Natal, além da cidade em si, foi a existência de um ônibus com elevador para fazer os passeios locais. Nota pra lá de dez para a empresa Potiguar, que respeita a pessoa com deficiência. Já em porto de Galinhas, quando perguntei se a empresa do lugar tinha este equipamento, responderam como se eu estivesse perguntando por um disco voador. Espantaram-se e me disseram que ninguém no Brasil oferecia isso. Em que planeta eles estão?

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Marcílio, o melhor bugueiro do mundo

Marcílio Bugueiro

Ir a Natal e não passear de Buggy por suas belíssimas dunas deve ser pior do que ir à Roma e não ver o Papa.

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Mas como um cadeirante passeia de buggy? Quando existe um bugueiro chamado Marcílio. O cara é super simpático e totalmente proativo. Logo encontrou um jeito de amarrar minha cadeira de rodas no buggy, ajeitou aqui e ali, embolamos todos e fomos para um dos passeios mais maravilhosos e inesquecíveis que fiz em minha vida! Marcílio, este é o cara!

 

Hotel em Nova York também pode ser problema

A chance de você se hospedar em um hotel em Nova York que não seja totalmente adaptado para cadeirante é de uma em um milhão.

Mas adivinhe se essa possibilidade aconteceu comigo? Pois é, fui sorteado!

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Quando fomos conhecer a Big Apple, fez a tradicional pesquisa. Mas no caso dos Estados Unidos você não precisa se preocupar com a questão da acessibilidade. Lá é tudo, absolutamente tudo, acessível.

Entretanto, por uma questão de economia (nome chique para pobreza) achei um hotel com diárias a 50 dólares. Todos os demais tinham preço acima de 300 dólares. É claro que peguei na hora.

Na chegada, logo percebi que se tratava de um pardieiro. O prédio era de 1928. Para se acessar o hotel havia um pequeno elevador junto da escada. Funcionou direitinho.

No apartamento começaram os problemas, não havia nenhuma adaptação para quem usa cadeira de rodas. Ok, eu estava em Manhattan e ficaria o mínimo de tempo dentro de um quarto de hotel.

Os elevadores e o sistema de incêndio eram bem modernos, apesar de o prédio ser de 1928. Lá, eles não brincam com a segurança. Até acredito que deveria haver ali, sim, algum apartamento para cadeirantes. Mas como eu disse, mal fiquei no quarto. Afinal, Manhattan me esperava.

O importante é viajar – Vai cadeirante porque a vida é movimento

Bem, apesar de erros e acertos, fiz e ainda faço muitos e bons passeios. o importante é sair de casa, pois como me diz a Lu, minha mulher, a vida é movimento. E passa muito rápido. Viaje. Viaje muito. Viaje agora. Amanhã você pode não aguentar mais.

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