Namoro do cadeirante, você sabe como é?

Namoro do cadeirante — Uma das maiores curiosidades das pessoas é sobre como é o namoro do cadeirante. O que posso fazer para colaborar com essa informação, até mesmo para ajudar àqueles que recentemente ficaram cadeirantes, é passar aqui um pouco de minha larga experiência como cadeirante, que é na verdade a única experiência que conheço, pois nunca andei. Sofri pólio aos seis meses de idade e sempre vivi com a Mafalda (nome de minha cadeira de rodas), que é a minha namoradinha mais fiel, pois nunca me deixou.

O namoro da pessoa com deficiência passa, necessariamente, por algumas fases. Basicamente, eu selecionei 5 etapas que considero as mais importantes e também as mais marcantes. Algumas são marcantes pelo lado negativo e outras pelo lado positivo.

 

Namoro do cadeirante em 5 etapas

  1. A autoaceitação

A parte mais difícil para alguém que sempre foi deficiente físico, sem sombras de dúvida, é a adolescência. É nessa fase que todos começam a arrumar suas primeiras namoradinhas, menos você. Na adolescência a coisa é bem mais difícil, pois embora até existam meninas interessadas, a dificuldade para elas também é muito grande, visto ter que enfrentar a opinião dos pais e a opinião alheia. O preconceito em geral não é da parte das garotas ou dos garotos que se sentem atraídos por um ou uma adolescente com deficiência, mas dos adultos que os cercam. E nessa fase, vamos combinar, ninguém tem condições emocionais de combater, de enfrentar todas essas dificuldades, essas barreiras, esses horrorosos obstáculos.

Todo este conjunto de coisas vai colocando sobre o adolescente com deficiência uma nuvem, uma sombra de que ele não será nunca aceito para um relacionamento amoroso. Durante muito tempo eu achei que não seria capaz de arrumar uma namorada. Em consequência deste pensamento negativo, eu não arrumava mesmo. Pois todo o meu comportamento, ainda que inconsciente, era de medo, pavor, pânico da rejeição. Então, eu já cortava logo de cara qualquer tentativa de aproximação de alguma garota interessada. Pois, dentro do meu pavor de ser rejeitado, eu preferia ser quem rejeitou. É evidente que isso me prejudicou demais. Pior: este comportamento durou por um período prolongado.

Um dia em que eu entendi o mal que estava causando a mim mesmo, a coisa começou a mudar da água para o vinho. O que me impedia de arrumar uma namorada não era minha deficiência física, não era minha cadeira de rodas, era meu comportamento arredio e até grotesco diante de todas as possibilidades de namoro que aconteceram.

Quando percebi que o meu problema era, sim, de autoaceitação, fui perdendo o medo. Afinal, receber uma recusa de uma menina não mata ninguém. E muitas vezes a garota poderia recusar por fatores diversos que não fosse, necessariamente, o fato de eu ser cadeirante. Quando entendi isso, a liberdade aconteceu.

A partir do momento em que compreendi de fato essa questão, arrumei a primeira namorada. Em princípio de modo muito tímido. Depois fui me acostumando. E mais tarde virei um verdadeiro galinha. Coisa que anteriormente eu considerava ser impossível. Mas isso foi na juventude. Depois fiquei sério, pois conheci o amor com toda sua força e seriedade que ele exige de todos nós.

  1. A rejeição da família da namorada

Esta aqui é sem dúvida a maior e mais sinistra barreira no namoro do cadeirante. A primeira vez que encarei a rejeição da família de uma namorada, tive uma série de reações simultâneas. Fiquei surpreso, fiquei estupefato e depois fiquei furioso.

Eu me perguntava: como um pai, uma mãe poderia ser contra algo que estava fazendo sua filha extremamente feliz? Se eu tivesse um defeito de caráter, se eu fosse mal para a filha deles, seria mais do que compreensível.

Mas não. A única rejeição era pelo fato de eu ser cadeirante. Mesmo sendo trabalhador, estudioso, respeitador e carinhoso com a garota. Nada disso lhes interessava. A única coisa que viam (e não gostavam) era a minha cadeira de rodas. Como se isso não pudesse acontecer naquela família.

Nem todas as casas serão tão cruéis. Há pessoas que valorizam e reconhecem o amor, a felicidade de um filho, de uma filha. No final, tudo sempre dá certo. Siga em frente, não se dobre, não se deixe intimidar, não se sinta inferior. A dignidade sempre prevalece. O sorriso da vida sempre prevalece. Creia nisso!

  1. O preconceito da sociedade

Este é outro ponto horrível a ser enfrentado pelo cadeirante e por sua namorada. O preconceito das outras pessoas é tão gigantesco que, certa vez, eu estava passeando com minha namorada, que romanticamente empurrava minha cadeira de rodas. Uma amiga dela a avistou. Aproximou-se e começou a conversar com ela como se eu nem existisse. Não me cumprimentou e não falou comigo.

Lá pelas tantas, mesmo diante de todo o carinho explícito de minha namorada para comigo, ela perguntou para minha namorada se ela estava namorando. Minha namorada, já constrangida e irritada, respondeu o óbvio: estou. Então a amiga lascou a pior de todas as perguntas: com quem?

Há pessoas que acham que somos meros objetos. Que não temos a capacidade de despertar a alegria em alguém. Que não temos a capacidade de fazer alguém feliz. Alguns pensam que somos um peso, um estorvo na vida e que, por consequência, ninguém em sã consciência se envolveria amorosamente conosco. Infelizmente isso existe. Mas há que se passar por cima e se afastar de gente assim. É o que eu e minha mulher fazemos.

Ainda sobre o preconceito da sociedade. Certa vez namorei uma garota que tinha muito mais recursos financeiros do que eu. Aliás, ela sim tinha recursos, eu nada. Quando nos viam descendo do carrão que era dela e entrando em restaurantes caros, cuja conta ela pagava, as pessoas cochichavam coisas do tipo: ali tem interesse.

Elas achavam que a grana era minha e que, portanto, eu só tinha namoradas porque as moças se interessavam no meu dinheiro. Mal podiam imaginar que o duro ali era eu. Puro preconceito.

Até hoje quando entro com minha mulher (que não é a namorada do carrão) em algum lugar mais sofisticado, ainda percebemos essa reação. Mas nunca deixamos essas pessoas infelizes nos afetar. Damos de ombros e vivemos a bênção que é a nossa vida. Simples assim.

  1. O apoio dos amigos

Uma das coisas mais calorosas que existem no namoro das pessoas com deficiência é o apoio dos amigos de ambas as partes. Os amigos são aquelas pessoas que, verdadeiramente, sabem reconhecer a felicidade do outro e entram de cabeça na luta por tal felicidade.

Esses amigos são responsáveis por proporcionar nossas maiores alegrias em nosso namoro. Ajudam na logística da locomoção, que em muitas vezes é complicada. Pensam na acessibilidade na hora de marcar uma festa, um passeio ou outro evento qualquer. Fazem uma vistoria nos locais onde estamos para ver se há acesso fácil ao banheiro etc.

O apoio dos amigos é fantástico. Nunca, jamais encontrei qualquer tipo de preconceito por parte dos amigos das namoradas que já tive. Isto porque, repito, os amigos sabem reconhecer a felicidade do outro e a colocam em primeiro lugar, enquanto algumas famílias olham apenas a forma física.

  1. A supremacia do amor

    supremacia do amor

Apesar de todas as lutas, o amor sempre prevalece. Se houver mesmo o verdadeiro amor, todas as barreiras impostas ao namoro do cadeirante, aos diversos relacionamentos das pessoas com deficiência serão superadas. Aliás, é assim não somente com os cadeirantes, mas com todas as pessoas.

Todos os amores enfrentam preconceitos, obstáculos, oposições, maldades etc. mas se houver amor de verdade, este prevalecerá. Nada pode destruir ou impedir o amor. Quem ama luta. Quem luta com amor vence. Sempre. Creia piamente nisso. Foi assim comigo. Foi assim com muitas pessoas no mundo. E será assim com você também.

 

 

 

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