Cadeirante e a Segregação da Sociedade

O cadeirante ou uma pessoa com deficiência enfrenta um problema muito antigo na humanidade: o preconceito com o diferente. Como sempre está no lado da minoria, a maioria tem a tendência de o excluir. O ser humano funciona assim. Infelizmente. Isso pode mudar? Pode e tem mudado. Mas exige uma luta diária, constante, pois sempre estão nascendo novas pessoas e se não forem educadas em relação a este fator desde a mais tenra idade, o problema vai se repetindo geração após geração.

O cadeirante ou uma pessoa com deficiência está, guardando-se as devidas proporções, na mesma condição daqueles que enfrentam rejeição em razão de suas etnias, crenças religiosas ou orientação sexual. A diferença consiste basicamente na forma como acontece essa rejeição.

O cadeirante ou pessoa com deficiência não encontra pela frente agressão física como acontece com os homossexuais ou pessoas de etnias minoritárias em determinado local. Não que esteja isento também deste tipo de ação. Ocorre violência também. Há registros de pessoas com deficiência sendo agredidas por puro preconceito ou covardia. Mas não é tão comum quanto com as outras minorias.

Entretanto, o cadeirante ou pessoa com deficiência enfrenta uma violência oculta, que é ser ignorado como se fosse invisível. É um jeito clássico de rejeição. E que, diga-se de passagem, dói demais. Dói em primeiro lugar pela própria rejeição em si. E em segundo lugar porque você tem suas competências, tem suas habilidades e pode ser, em certos assuntos, muito mais produtivo do que os seus concorrentes. Mas você acaba, sistematicamente, ficando de fora. Fingem não ver suas competências. Aliás, fingem não ver você, quanto mais algumas de suas habilidades.

Para o cadeirante tudo tem que ser na marra

Veja o caso da lei que estabelece a obrigatoriedade das empresas reservarem um pequeno percentual de seu quadro de funcionários para pessoas com deficiência.

Esta lei entrou em vigor no de 1991. E somente no ano de 2004 o Ministério Público do Trabalho começou a cobrar das empresas o seu cumprimento. Por que levou tanto tempo para este órgão, que tem por obrigação defender o cidadão, começar a agir?

Ainda assim, a luta é ferrenha. Há empregadores que simplesmente não querem lá as pessoas com deficiência e pronto. E como fica o clima de um deficiente físico que ali entrou na marra? Ele acaba sendo fritado.

Quando não há adequação do local, por exemplo, ainda que as pessoas recebam de braços abertos o deficiente físico, ele acaba sendo fritado do mesmo jeito.

Eu mesmo trabalhei em um lugar totalmente inadequado para cadeirantes. Era uma sala que cabia no máximo quatro mesas, mas tinham sete ou oito. Os documentos com os quais eu precisava trabalhar ficavam em outra sala, numa prateleira alta. Não era fácil para mim, um cadeirante, sair de um lugar para outro, pois constantemente tinha que ficar pedindo aos colegas para chegar um pouquinho pra lá, um pouquinho pra cá… para conseguir passar. Ao chegar na outra sala, precisava interromper o serviço de alguém para que o mesmo me auxiliasse apanhando uma pasta que estava na prateleira de cima. E quando porventura não era a pasta que eu precisava, tinha que pedir ao colega para repetir o favor.

É claro que isso fez a qualidade de meu serviço cair ao chão. Fez também nascer um baita clima de constrangimento. De uma parte, eu totalmente sem graça de pedir tantos favores. De outra parte, os colegas que já não suportavam mais serem interrompidos por tantas e tantas vezes.

Meu constrangimento já começava lá na entrada, onde havia uma escada de seis degraus pela qual eu precisava me arrastar na frente de todos, que também não aguentavam aquela situação. E para ir ao banheiro? As portas eram estreitas, eu tinha que deixar minha cadeira de rodas no corredor e entrar arrastando-me pelo chão, geralmente molhado. Quem pode ser produtivo numa situação dessas?

A falsa conscientização das pessoas

Hoje é muito bonito falar que têm total conscientização e dão total apoio ao cadeirante, ao negro, ao homossexual etc. Mas quando vejo pessoas construindo suas casas, não percebo sequer uma única medida de acessibilidade. Depois dizem que recebem lá todo tipo de gente sem preconceito algum. Como sem preconceito se fez a casa apenas para quem tem o físico perfeito? É muito fingimento para meu gosto. Tudo bem, ninguém é obrigado a me convidar para visitar sua casa. Não é isso que estou dizendo. Mas se todos desejam de verdade extirpar algo ruim na sociedade, algo que segrega e separa as pessoas, deveriam sim começar pela própria casa. Do contrário, é conversa para boi dormir. Isso pra mim deixa claro com que tipo de pessoas com quem querem conviver. E eu fiquei fora da lista.

E quando seu direito é publicamente desrespeitado?

Há situações que me causam extrema revolta. Estou falando daqueles motoristas de ônibus que se sentem no direito de não parar ou de não operar o elevador dos ônibus urbanos quando há uma cadeirante no ponto.

Mas eles não agem assim por conta própria. É evidente que não. Pois qual seria o louco de arriscar todos os dias o seu emprego? É óbvio que há a conivência da empresa por trás de tudo isso. As empresas acham que o cadeirante vai ocupar muito espaço físico dentro do ônibus, o que em tese diminuiria seu já absurdo lucro.

Ora, tais empresários se esquecem de que são permissionários do poder público. Eles se esquecem de que a eles foi concedido o direito de explorar o serviço de transporte de pessoas. Como tal, são obrigados a trabalhar de acordo com as necessidades dessas mesmas pessoas. Não são eles donos do direito alheio.

Mas onde está quem deveria fiscalizar e impedir essa situação?

Quem souber que me informe, porque tais cenas se repetem todos os dias, há anos, em várias partes do Brasil. O absurdo é tão grande que certa vez vi pelas redes sociais um vídeo de uma mulher cadeirante que se acorrentou ao para-choque de um ônibus urbano, em protesto pelas centenas de vezes que os motoristas se recusaram a embarcá-la. E onde estava quem deveria fiscalizar? Ninguém sabe. Por que sumiram? Outro mistério do Chupa Cabra, da Mula Sem Cabeça, do Saci Pererê.

O cadeirante, enquanto isso, segue sua luta Brasil afora recebendo tapinhas nas costas, sorrisos e palavras (vazias) de solidariedade. A vida vai passando, ele vai se ferrando aqui e ali e tudo continua como dantes no quartel de Abrantes.

O cadeirante, entretanto, não pode jamais se conformar com isso. Assim como os negros não podem se conformar com o racismo. Assim como os judeus não podem se conformar com a segregação. Não, as pessoas com deficiência precisam sempre, ainda que arduamente, lutar e gritar. Acima de tudo contra a hipocrisia. A mesma hipocrisia que as etnias de minoria enfrentam. A hipocrisia de quem diz que estamos certos, mas que em seu dia a dia nada faz para que tal situação seja mudada. Até o dia em que a cadeira de rodas bate à sua porta. Ah… aí a história muda de lado.

As pessoas não vão ficar negras, não vão se converter ao judaísmo, não vão se tornar homossexuais, mas podem sim ficar cadeirantes. E aí? Como é que a situação fica agora?

Quando abordo este tema, surgem centenas de pessoas até então sumidas para me dizer que estou rogando praga, que estou pegando pesado etc.

Não, seu mané. Estou apenas falando do que acontece todos os dias no Brasil com, literalmente, milhares de pessoas.

Vamos aos assustadores números

Todos os anos 52 mil brasileiros são assassinados. Mas a estatística não revela quantos ficam deficientes físicos nessa guerra.

Todos os anos 50 mil brasileiros morrem em acidentes de carro, seja na cidade ou na estrada. Mas a estatística não revela quantos ficam deficientes físicos por causa desses acidentes.

Quer ter uma ideia real do que eu estou falando. Faça como eu fazia há anos atrás. Visite toda segunda-feira o centro de traumatologia de um hospital.

Eu sempre ia lá dar uma força para os pacientes em razão do que dali em diante seria a vida deles. E o que eu encontrava eram tetraplégicos e paraplégicos que tinham sido vítimas de bala perdida, de bala endereçada, de saltos em cachoeiras, de mergulhos no mar, nos rios, nas lagoas, de acidentes de carro, de acidentes de moto, de quedas dentro de casa, de quedas do telhado quando foram arrumar alguma coisa, de quedas nas escadas que ligavam o térreo ao andar de cima, de quedas dentro do banheiro etc.

Essas pessoas não entram em nenhuma estatística. Não que eu saiba. E de um minuto para o outro passam a viver em um mundo que não está preparado para sua nova situação. E porque este mundo, aqui no Brasil, é tão despreparado assim? Em parte por culpa delas mesmas que, egoisticamente, nunca deram bola para os milhares e milhares de deficientes, que todos os dias gritam por respeito e acessibilidade.

Não, não estou sendo cruel. Cruel é a realidade. Sou apenas o mensageiro.

É o que eu sempre digo. Se a pessoa não começa dentro de sua própria casa, ela não está querendo mudar nada. O resto é balela.

Eu rasgo a taioba. Falo talvez naquilo que ninguém quer e que ninguém admite. O contra argumento mais fácil é me chamar de revoltado, de pedante ou de delirado. Até que… o vento vira e a pessoa passa para o lado de cá. Um lado que não precisava ser tão difícil. Mas se há falta de vontade política por parte de nossos governantes. Também há falta de vontade humanística por parte de nossa população que não pertence a nenhuma minoria. Ao contrário, goza das benesses dadas à maioria sem olhar para o lado e pronto.

Outro contra argumento mais do que pobre, pois chega a ser ridículo, é dizer que estou rogando praga.

Não estou rogando praga coisa nenhuma. Estou gritando para que façam alguma coisa ao alcance de todos, para que o Brasil seja bom para todos. Mas somos tão inertes, tão sem ação, tão hipócritas, que aceitamos conviver pacificamente com 52 mil assassinatos por ano. Com 50 mil mortes no trânsito por ano. E isso se repete há cerca de 20 anos consecutivamente e vai se repetir, quiçá aumentar. E o que fazemos? Vamos para as ruas? Só no dia em que a bala perdida atinge um dos nossos. Aí gritamos e esperneamos. Antes disso… vamos ver o futebol e beber cerveja que é melhor.

Há um ditado popular que diz: “quem não aprende por amor, aprende pela dor”.

Mas precisa sempre ser pela dor? É muita estupidez de nossa parte assistirmos de camarote à dor alheia e nada aprender com isso, a ponto de aceitarmos calados aquela situação. Cruzamos os braços, damos de ombros e depois, quando é conosco, berramos aos quatro ventos por algo que poderia lá atrás ter sido, sim, evitado. Que não precisaria ter chegado até nós.

O cadeirante rico e o cadeirante pobre

Quando a deficiência física começou a chegar nas classes mais abastadas do Brasil, geralmente por acidentes de carros, já que os ricos sempre têm carrões possantes, ou por balas de armas de fogo disparadas por assaltantes, já que as classes mais elevadas economicamente sempre são alvo de assaltos, alguma coisa começou a ser mudada. Mas apenas dentro do universo onde as classes mais abastadas vivem.

Os aeroportos começaram a ter mais acessibilidade no embarque e desembarque. Mas as rodoviárias não.

Os bairros mais nobres começaram a ter mais calçadas bem feitas e com rampas, mas os bairros mais pobres não.

As escolas particulares começaram a ter mais acessibilidade arquitetônica, mas as públicas não.

O comércio de bairros elegantes começou a ser pressionado a adotar medidas de acessibilidade para cadeirantes, mas o comércio dos bairros pobres não.

Os carros começaram a ter abatimento de imposto na hora da compra por parte de um cadeirante, mas as passagens de ônibus não.

Ora, não podemos continuar atendendo apenas a alguns nichos. É a segregação dentro da segregação. Incrível como conseguimos nos superar na criatividade até para discriminar!

Políticas públicas de verdade resolveriam tudo isso

Caso nosso país adotasse (depende de nós essa cobrança) políticas públicas séria tudo isso seria resolvido. Por quê? Porque a política pública é homogênea, segue um mesmo padrão em todo o território nacional, evitando essa segregação dentro da segregação, evitando esse disparate entre os vários locais urbanos, entre cadeirantes abastados e cadeirantes pobres.

Além das políticas públicas há a política privada, que nada mais é do que a sua atitude individual. Atitude verdadeira. O mundo é transformado através da atitude dos indivíduos.

Não pense que o seu agir é pouco, porque não é. As coisas mudam assim mesmo. Tijolo por tijolo. Pedra por pedra. Foi assim que as mais belas catedrais do mundo foram erguidas. Foi assim que os mais fortes castelos do mundo foram erguidos. Foi assim que as maiores nações e impérios da História foram erguidos.

Por onde começar? Esta é geralmente a pergunta que todos fazem.

Comece agora, por exemplo, dando sua força a este nosso trabalho. E como fazer isso? Muito simples, deixe seu e-mail registrado aqui para ficar por dentro de todas as novidades, de todas as lutas e, sim, de todas as mudanças e conquistas que formos alcançando, além de baixar gratuitamente meu e-Book 3 Direitos dos Deficientes Que Ninguém Nunca Te Contou.

Muita coisa já mudou. Muita coisa já foi alcançada. E muita coisa ainda pode mudar com este seu simples gesto de apoio.

Outra coisa bem simples ao seu alcance: compartilhe este artigo e indique este blog aos seus seguidores nas suas redes sociais. Você nem pode fazer uma mínima ideia do quanto isso ajuda, do quanto isso fortalece nossa luta. Vários avanços já foram conquistados através deste simples tipo de atitude, pois nunca podemos imaginar a ponta da linha onde nossos compartilhamentos vão parar. Em muitos casos param na pessoa que tem uma solução para um grande problema coletivo. Isso é fantástico e está ao seu alcance. Basta compartilhar e pronto.

Está vendo como não é tão difícil assim fazer alguma coisa para mudar nosso Brasil? É assim que novas ideias vão se espalhando. É assim que a conscientização vai chegando até às pessoas, levando esclarecimentos e mudanças de comportamentos.

O Brasil possui 45 milhões de pessoas com deficiência.

É muita gente! É mais do que a população da maioria dos países existente no globo terrestre. E você pode ajudar a mudar para melhor a realidade de todas essas pessoas com atitudes bem simples como as que eu acabei de colocar. Conto muito com você. De verdade. De coração.

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Um forte abraço, sucesso e que Deus te abençoe.

 

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