Calçadas estreitas e obstruídas são obstáculo para cadeirantes

Recentemente, a jornalista Ana Cláudia Jathay sofreu um acidente que a fez perder, momentaneamente, possibilidade de andar com as próprias pernas. Após um acidente, ela precisou realizar uma cirurgia em uma das pernas. Por dois meses, ela precisou andar de cadeiras de roda e, agora, caminha com auxílio de muletas. Essa mudança repentina de rotina lhe fez rever alguns conceitos e sentir na pele as dificuldades que um cadeirante ou uma pessoa com mobilidade reduzida sofre para caminhar pelas ruas de Manaus.

Sem estrutura adequada, ela afirma que Manaus ainda está longe de oferecer qualidade de vida para quem depende de uma cadeira de rodas.  “É horrível! Levei um choque de realidade para me adaptar. As calçadas são irregulares, as rampas são inadequadas e as pessoas não respeitam os acessos para cadeirantes”, afirmou a jornalista.

Já a assistente administrativo Najara Silva, 40, sofre com o problema desde os 12 anos, após desenvolver a síndrome Guillain-Barré, que lhe tirou os movimentos das pernas. Se locomover em Manaus, diariamente, é um verdadeiro desafio para ela. “Pegar ônibus é um desafio porque nem sempre as plataformas funcionam ou então sempre tem alguém ocupando o lugar do cadeirante. É constrangedor e humilhante”, contou ela.

Encontrar locais inapropriados para cadeirantes e pessoas com mobilidade reduzida não é difícil. Avenidas de grande fluxo como a André Araújo e Efigênio Sales, por exemplo, apresentam sinais de que Manaus está cada vez menos preparada para oferecer acessibilidade para pessoas com deficiência.

Na avenida André Araújo, próximo a rotatória Gilberto Mestrinho (Bola do Coroado), até existem rampas de acesso para usuários de cadeira de rodas, mas os postes fixados na calçada atrapalham o trajeto do cadeirante.

Já na rotatória, na saída para a avenida Efigênio Sales,  outros três problemas podem ser facilmente identificados: na descida, além da calçada ser estreita para um cadeirante, um trecho dela está inviável para a passagem, pois o concreto está danificado, e ao subir a rampa de acesso, o usuário se depara com um poste, que impede a pessoa a travessia.  “Não tem como uma pessoa passar ali”, observou Ana Cláudia.

Elas afirmam esses problemas só se multiplicam por toda a cidade, tanto em espaços públicos quanto privados.  “Você vai em um supermercado e eles não oferecem cadeiras ou muletas. Nos shoppings, não em todos, mas na maioria,  tem o mesmo problema. As pessoas com deficiência precisam ter mais qualidade de vida por onde quer que elas passem”, afirmou Ana Cláudia.

“Outro dia eu fui levar os meus filhos para passear em um parque em um shopping e a rampa era enorme. Tiveram que pedir ajuda dos bombeiros civis para eu subir. No guichê de pagamento também tive dificuldade porque a altura não era apropriada para mim. Mas Isso é só um exemplo do que a gente enfrenta diariamente”, contou Najara.

Acessibilidade além de rampas

A deputada federal Conceição Sampaio (PP) teve a mesma experiência de Ana Cláudia Jathay no início do mandato dela, em Brasília, em 2015. De acordo com a parlamentar, foram quase seis meses dependendo de uma cadeira de rodas, após ter passado por uma cirurgia. “Trabalhei em uma cadeira de rodas e senti na pele essas dificuldades. Foram muitos dias precisando de alguém para me empurrar. No avião também era um sofrimento”, disse.

Para a deputada, que integra a Comissão de Defesa da Pessoa com Deficiência da Câmara de Deputados, pensar em acessibilidade vai além da construção de rampas. “Aqui em Brasília também tive problemas porque nem todos os prédios dos ministérios são adaptados para um cadeirante. E a cidade tem que ser construída pensando no direito de ir e vir de toda a população. Já avançamos em muitos aspectos, muitas leis foram produzidas, mas percebemos que muitos pontos ainda não estão sendo praticadas”, afirmou.

Espaços precisam se adequar

De acordo com a presidente da Comissão de Defesa dos Direitos da Pessoa com Deficiência da Seccional do Amazonas da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB/AM), Nacy Segadilha, até as áreas mais nobres da cidade não oferecem condições de mobilidade para pessoas com deficiência.

“As ruas do centro histórico de Manaus não garantem o acesso das PCDs. Respeitamos a iniciativa de reformar o Centro, porém, lamentavelmente, em nenhum momento pensaram que as ruas de paralelepípedos são danosas demais para um cadeirante, por exemplo. A cadeira trepida, quebra com mais facilidade e favorece o aparecimento de lesões na coluna. A Ponta Negra é outra obra importante, mas que não foi preparada ou pensada, da forma correta, para atender a todos as PCDs”, afirmou.

Segundo a advogada, para garantir qualidade de vida e acessibilidade para essa população é necessário ainda a implementação de políticas públicas inclusivas para minimizar os obstáculos.   “Além de rampas, é preciso ter adequações nos prédios públicos e privados de uso coletivo, nas calçadas regulares com desnível, transporte público acessível, vagas destinadas a pessoas com deficiência e promoção do respeito às diferenças”, defende ela.

Projeto de delegacia

A seccional da Ordem dos Advogados do Brasil no Amazonas (OAB/AM) também defende a criação de uma delegacia especializada pata atender pessoas com deficiências devido ao grande número de denúncias de violência registrados pela comissão da ordem.

Fonte: A Crítica

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